O Desafio de ser Grande

[…] A previsão de crescimento em 2010 foi de 7,5% – uma aceleração ao estilo chinês. Dentro desse contexto animador, emerge uma preocupação. É possível manter esse desempenho vigoroso de forma sustentável? Em outras palavras, sem agredir a natureza nem arruinar os recursos naturais do país. O crescimento econômico só tem vantagens. Promove o aumento do emprego, de renda e dá dignidade a vida de um povo. Se o preço a pagar por isso, contudo, for à degradação do ambiente em que vivemos, o prejuízo será duplo: a perda de nossa qualidade de vida e um futuro incerto para as próximas gerações.


 

A historia é pouco animadora no que diz respeito a crescer sem degradar. […] Nos últimos 8.000 anos, com invenção da agricultura e das cidades, o impacto do homem na natureza tornou-se significativo. Com o, início da Revolução Industrial, há dois séculos, nossa capacidade de extrair recursos naturais aumentou a ponto de desfigurar a face do planeta. Os países desenvolvidos são exemplos recentes dessa logística. A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponível para produzir alimentos. A China amarga as conseqüências do crescimento a qualquer custo das ultimas décadas. Um terço dos rios e 75% dos lagos do país estão contaminados. Das vinte cidades mais poluídas do mundo, dezesseis são chineses. Mais de 750.000 pessoas morrem por ano em decorrência da água e do ar pútridos no país. As fábricas movidas a carvão criaram vilarejos doentes, nos quais a taca de tumores malignos é altíssima.



[…] O Brasil entra na sua fase de maior crescimento econômico prolongado em um período se precedentes de conscientização sobre a necessidades de preservação ambiental. […] Os desafios brasileiros para crescer e, ao mesmo tempo, se adequara ao novo modelo sustentável de mundo são enormes. Será preciso expandir a agropecuária sem desmatar a Amazônia, suplementar a geração de energia, investir bilhões em infra-estrutura – desde a básica, como saneamento, até a modernização de portos e aeroporto.


 

Uma das chaves para que tudo isso ocorro de forma sustentável é a inovação tecnológica. […] Hoje, é possível dobrar a produção agropecuária sem derrubar uma árvore da Amazônia. De acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entre 1996 e 2006 houve uma redução de 10,7% nas áreas de pastagem. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu 12% e a produção de carne, 70%. Em dez anos, a produtividade por hectare de cana-de-açúcar saltou de 49 para 80 toneladas. Com tecnologia adequada, é possível produzir muito mais.  Técnicos estimam que a produtividade da soja poderia aumentar 50% só com o uso correto da irrigação. Também graças à inovação, a cana-de-açúcar é o produto agrícola que mais cresce no país. Hoje, os canaviais ocupam 8 milhões de hectares. Para a cana ganhar o mercado internacional de etanol e se tornar uma alternativa ao petróleo, será necessário aumentar sua produção. “Isso só pode acontecer sem desmatamento se houver aumento na produtividade e melhoramento genético da cana”, diz o biólogo Fernando Reinach, um dos mais conceituados, especialistas brasileiros em tecnologia para o agronegócio.

“O problema é que, no Brasil, sai mais barato desmatar do que investir em tecnologia. Isso sem falar na falta de incentivos e nas falhas de nossa legislação”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente da CNA. A fronteira agrícola nacional avança a passos largos sobre a Floresta Amazônica. De acordo com a FAO, o país é o que mais desmata no mundo. Entre 2000 e 2009, a participação brasileira no desmatamento mundial aumentou de 18% para 20%. Mais de 2,6 milhões de hectares de floresta foram destruídos no período. Preservar a Amazônia não é balela de ambientalista. É uma questão de sobrevivência. A Amazônia detém a maior biodiversidade do planeta e o maior e mais diverso santuário do mundo. A rede hidrográfica da região tem um potencial energético de 70 gigawatts, metade do potencial nacional. O fim da floresta mudaria o regime de chuvas em toda a América do Sul, com prejuízos para a agricultura a para a geração de energia – duas coisas de que o Brasil vai precisar muito se quiser crescer.

Se os desafios são grandes, as oportunidades também o são. Um estudo do Banco Mundial aponta o Brasil como o provável líder de uma nova economia verde, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 37% (o equivalente a tirar da rua todos os carros do mundo por um período de três anos) sem comprometer o crescimento, a criação de empregos e o desenvolvimento nas próximas duas décadas. No exterior, a expectativa é que o Brasil contribua de forma contundente para suprir a crescente demanda mundial de alimentos e também para uma solução energética, por meio do etanol.


 

“Só será possível assumir esse papel e competir com outras economias emergentes se houver o dobro de investimentos em infraestrutura”, diz Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral. Para o crescimento anual de 5% na próxima década, os valores destinados ao segmento deverão girar em torno de 4% do PIB ao ano, ante os 2% destinados atualmente.

Fazer tudo de forma correta e sustentável é possível? Os economistas e especialistas em sustentabilidade ouvidos por VEJA para esta reportagem são unânimes em dizer que sim. Há tecnologias de primeira linha para expandir o agronegócio e o setor energético. Ao contrario de outros países, temos a felicidade de dispor de reservas ambientais. Todos eles concordam com a seguinte ponderação: para chegar lá, é preciso mudar de atitude quanto antes. Devido às facilidades que a natureza oferece ao país, governantes, empresários e ate mesmo a população tendem a agir de forma inconseqüente em relação ao futuro e a adiar a adoção de praticas para preservar o que ainda temos. Para o Brasil crescer com qualidade, é preciso cuidar do que a natureza nos deu de graça.

Bibliografia: Veja edição especial. Editora Abril. Ano 43 (VEJA 2196). Dezembro 2010. Página 30 – 33.

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2 Respostas para “O Desafio de ser Grande

  1. Newton Rabelo

    gostei do que tem aqui. estou fazendo gestão ambiental.

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